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Arequipa, a cidade branca: guia premium em dois dias

Destinos· 9 min de leitura·5 de dezembro de 2024

Arequipa, a cidade branca: guia premium em dois dias

Sillar, mosteiro, picantería e vulcões — como ler Arequipa sem cair no guião turístico.

Por Kada Travel Editorial

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A primeira coisa que se nota em Arequipa, antes da arquitetura colonial ou dos vulcões que a rodeiam, é a luz. Cai a direito sobre a pedra branca — o sillar, um tufo vulcânico — e produz, às cinco da tarde de um dia seco, um branco fosforescente que nenhuma outra cidade colonial sul-americana tem. Daí o nome de cidade branca, e daí o facto de se perceber melhor vista de cima do que da rua.

A cidade foi fundada em 1540 por Garcí Manuel de Carbajal, num vale a 2335 metros entre três cones vulcânicos — o Misti, o Chachani e o Pichu Pichu. A altitude conta: abaixo dos três mil metros não há soroche; acima de Lima, já há luz andina. É, geograficamente, a cidade de transição entre a costa e a serra. Recomendamos sempre duas noites: uma para o corpo, outra para a cidade.

Primeiro dia: o mosteiro e o centro

O primeiro dia abre com o mosteiro de Santa Catalina. Vinte mil metros quadrados de cidadela monástica, fundada em 1579 por Dona María de Guzmán, viúva de um encomendero, para as filhas segundas da nobreza local, que não podiam herdar mas podiam entrar no convento com dote. Durante três séculos ali viveram até duzentas religiosas, acompanhadas das suas criadas, em clausura absoluta — a cozinhar, a tecer, a rezar, sem contacto com o exterior. A cidadela tem ruas, praças, lavadouros, refeitórios, celas individuais, capelas. Ao percorrê-la, tem-se a sensação de visitar uma pequena cidade espanhola transplantada para o século XVI, sob a luz mais branca do Peru.

Recomendamos sempre a visita guiada privada — duas horas com um guia local — e não a visita livre. Sem guia, as celas parecem todas iguais e o labirinto interior desorienta. Com guia, a história ordena-se: a diferença entre as celas das noviças, austeras e partilhadas, e as das religiosas professas, privadas e com cozinha própria e criadas; a reforma de 1871, quando uma religiosa enviada por Roma pôs fim às domésticas e ao luxo privado; a abertura ao público em 1970, decidida para financiar a conservação; e a convivência atual com as cerca de vinte religiosas que ainda vivem numa ala fechada.

Depois do mosteiro, almoço na La Nueva Palomino, no bairro de Yanahuara. É a picantería tradicional mais respeitada da cidade, aberta desde 1893. Cozinha arequipenha sem concessões: rocoto relleno com queijo paria, ocopa arequipeña, adobo de porco, soltero de queso. A picantería — mesas de madeira, toalha aos quadrados, pisco como aperitivo — é a instituição mais bem conservada da Arequipa republicana. É a refeição de que se lembrarão ao voltar a casa.

À tarde, caminhada pelo centro histórico. A Plaza de Armas, uma das mais bem preservadas do Peru; a Catedral, cuja fachada neoclássica foi erguida após o incêndio de 1844 e refeita após o sismo de 1868; a Igreja da Companhia, com o portal barroco do final do século XVII talhado em sillar; e a Casa del Moral, casa colonial do século XVIII aberta a visitas, com a sua amoreira bicentenária no pátio. Fecho do dia com um cocktail no terraço do Casa Andina Premium, com vista direta para o Misti ao pôr do sol.

Igreja da Companhia com a fachada barroca de sillar ao entardecer
O portal da Igreja da Companhia, talhado em sillar no século XVII, com o Misti por trás.

Segundo dia: Yanahuara, museus e miradouro

O segundo dia começa em Yanahuara, o bairro do outro lado do rio Chili, cuja igreja data de 1750 e que hoje conserva o tecido histórico mais bem preservado de Arequipa. A praça de Yanahuara e o seu miradouro — o Misti perfeitamente emoldurado por arcos de sillar gravados com hinos à cidade — dão o postal definitivo. Chegar às oito da manhã, antes dos grupos.

Depois, dois museus que vale a pena ver. O Museu dos Santuários Andinos alberga Juanita, a jovem inca sacrificada por volta de 1470 no Ampato e encontrada no cume do vulcão em 1995, quando a cinza do Sabancaya vizinho, então em erupção, derreteu o gelo que a cobria. Perfeitamente conservada pelo frio, repousa numa vitrina climatizada. O museu é pequeno — quarenta minutos — mas a visita fica. A casa-museu Mario Vargas Llosa, no boulevard Parra, é a casa onde nasceu o Prémio Nobel em 1936; conservada como pequeno museu literário, vale vinte minutos para os leitores.

Para o almoço do segundo dia recomendamos a Chicha, no pátio de um casarão republicano do centro. É a versão refinada da cozinha arequipenha — rocoto relleno desconstruído, ocopa com quinoa, locro de abóbora em prato fundo de cerâmica de Pucará. Diferente da La Nueva Palomino da véspera, e complementar.

À tarde, visita ao bairro de San Lázaro, o mais antigo da cidade — o núcleo que existia antes da fundação oficial. Ruas empedradas, casas brancas de telha, uma igreja do século XVI. Depois, regresso ao hotel pelo Puente Bolognesi, ponte colonial de sillar iniciada em 1577 e concluída em 1608, uma das construções mais antigas da cidade, e jantar no Zig Zag, a casa das carnes grelhadas em pedra vulcânica, instituição local.

Arequipa não é uma Cusco menos alta. É uma república mestiça que nunca quis fazer parte do Peru — esse Peru que não acaba de aceitar Lima, nem a serra, nem a costa.

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Onde dormir: três opções

O Cirqa Relais & Châteaux é a casa mais conseguida de Arequipa. Num casarão do século XVI restaurado com muros de sillar originais: onze quartos, biblioteca, restaurante com menu de degustação. É o único membro Relais & Châteaux no sul do Peru, e o mais caro. Para duas noites, vale o que custa.

O Casa Andina Premium Arequipa ocupa a Casa de la Moneda, a antiga casa da moeda colonial construída em 1794 e classificada monumento histórico nacional. Quarenta e um quartos, dois pátios coloniais, frescos originais e uma capela que o restauro trouxe à luz. É a opção intermédia: arquitetura colonial verdadeira, serviço internacional, preços razoáveis.

A Casa Cantabria, casa republicana do século XIX com doze quartos, é a opção boutique mais íntima. Sem restaurante próprio (o bairro de Yanahuara fica a cinco minutos a pé), com café de pátio e pequeno-almoço caseiro. Recomendada a casais que põem a atmosfera à frente do serviço.

Como combiná-lo

Arequipa combina-se inevitavelmente com o Cânion do Colca: quatro horas de carro privado, duas noites no Colca, regresso a Arequipa por mais duas noites, depois voo para Cusco ou regresso a Lima. Seis a sete dias no total a partir de Arequipa.

Para quem faz o Peru inteiro, a sequência natural é: Lima (2-3 noites) → Arequipa (2 noites) → Colca (2 noites) → regresso a Arequipa (1 noite, opcional) → voo Arequipa-Juliaca e transfer para Puno (2 noites no Titicaca) → voo Juliaca-Cusco (4 noites entre Cusco, Vale Sagrado e Machu Picchu). Catorze a quinze dias. É a viagem completa ao sul peruano.

Uma nota final sobre Arequipa: é a única cidade do Peru com sotaque próprio, com a sua própria sobremesa nacional — o queso helado, uma mistura gelada de leite, canela e coco tomada em formas de cobre — e com um separatismo latente desde a independência. Os arequipenhos dizem-se de bom grado «da república independente de Arequipa». A fórmula é uma piada local, mas o orgulho é real. E nota-se: quem passa dois dias aqui percebe, ao voltar a Lima, que o Peru é um país de regiões e não uma nação uniforme. Essa lição só por si justifica a paragem.

Escrito por Kada Travel Editorial

Perguntas Frequentes

Não. A 2335 metros não há soroche em pessoas saudáveis. É a altitude ideal para preparar o corpo antes de Cusco (3400) ou do Colca (3700 no alojamento, 4910 no passo antes do miradouro do condor).

Duas noites no mínimo, três no ideal. Duas noites deixam um dia inteiro na cidade e uma manhã para Yanahuara. Três permitem mais um dia para a campiña ou uma picantería de Sachaca ou Tiabaya.

Sim. Várias companhias servem a cidade diariamente desde Lima (1h25) e desde Cusco (50 minutos). O aeroporto Rodríguez Ballón fica a 25 minutos do centro.

De maio a outubro: estação seca, sol garantido, noites frescas. De novembro a março é época de chuvas — não torrenciais, mas diárias. Abril é excelente: a secar, com sol e a paisagem ainda verde do pós-chuvas.

No centro histórico, sim, até às onze da noite. Em Yanahuara, sim. Em San Lázaro, sim, mas com pouca iluminação. Nos bairros fora do núcleo turístico, não recomendamos. Para jantar fora do centro, táxi ou transfer.

Para quem tem experiência de montanha, sim: o Misti sobe-se em dois dias com guia profissional, a partir de um campo base a 4500 metros. Para os restantes, a vista de Yanahuara ou de um terraço basta. O vulcão é o postal da cidade, não necessariamente o destino.

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