
Destinos· 9 min de leitura·6 de novembro de 2024
Paracas e as ilhas Ballestas: as Galápagos peruanas
A três horas a sul de Lima, onde o deserto desce ao mar e os lobos-marinhos se contam aos milhares.
Por Kada Travel Editorial
O primeiro facto geográfico de Paracas é que o deserto desce diretamente ao mar. Não há transição — não há faixa costeira com vegetação, não há mato — mas areia do Pacífico contra areia do deserto, uma linha reta de mais de cem quilómetros entre Pisco e Nazca. O segundo facto é que essa linha, longe de ser árida, está cheia de vida: a corrente fria de Humboldt e o afloramento que a acompanha trazem os nutrientes do fundo e alimentam um dos ecossistemas marinhos mais densos do planeta.
Daí a alcunha — as Galápagos peruanas — que circula desde os anos setenta. A comparação é generosa, mas não é infundada. As Ilhas Ballestas não têm a fauna endémica das Galápagos, mas têm a densidade: lobos-marinhos sul-americanos aos milhares, pinguins-de-Humboldt, alcatrazes-peruanos, pelicanos, corvos-marinhos-guanay, golfinhos-comuns e, em época própria, baleias-de-bossa. E tudo isso a três horas e meia de Lima pela Pan-Americana Sul.
El Chaco: a aldeia, a entrada
El Chaco é a povoação costeira de onde parte toda a atividade: três quarteirões de marginal, restaurantes de marisco, agências, o Hotel Paracas a sul, o Aranwa Paracas a norte. Chegar a Paracas significa, na prática, chegar a El Chaco. A Reserva Nacional — a zona desértica com cemitérios paracas e vista para o Pacífico — fica a quinze minutos de carro. As Ilhas Ballestas, mesmo em frente, alcançam-se de lancha às oito da manhã.
A povoação é modesta. Não é o atrativo. O que importa são as casas — o Hotel Paracas e o Aranwa — e o cais. Ao viajante exigente recomendamos ficar fora da povoação: ambas as casas têm lanchas privadas que evitam a saída em massa do cais público.
As Ilhas Ballestas: de lancha, às oito
O percurso das Ballestas dura duas horas. Lancha rápida, trinta passageiros na versão de grupo ou seis na versão privada, que recomendamos. A saída do cais de El Chaco é às oito da manhã, não porque a fauna esteja mais ativa — está igual às onze —, mas porque o vento do Pacífico se levanta a partir das dez e a lancha começa a bater.
O primeiro ponto do percurso, antes das ilhas, é o Candelabro de Paracas: um geoglifo de cento e oitenta metros gravado numa colina de areia que cai ao mar, visível apenas da água. A sua origem continua em discussão — uns associam-no à cultura Paracas, outros a marinheiros do século XIX —, mas a sua escala não. Visto da lancha, a duzentos metros da falésia, é uma das imagens que ficam.
As Ballestas propriamente ditas são três ilhas pequenas, com grutas, arcos e plataformas naturais. A fauna observa-se da lancha, sem desembarque — a entrada nas ilhas é proibida por estarem em reserva. O que se vê, por ordem de probabilidade: colónias de lobos-marinhos sul-americanos nas plataformas (três a cinco mil indivíduos conforme a época), pinguins-de-Humboldt nas falésias (cem a trezentos), alcatrazes-peruanos em formação de pesca, pelicanos a caçar em grupo, golfinhos atrás da lancha. Em época própria, de junho a outubro, baleias-de-bossa em migração.
A Reserva Nacional: o deserto até ao mar
A tarde é para a Reserva Nacional de Paracas. Trezentos e trinta e cinco mil hectares, metade terrestres e metade marinhos, classificados em 1975. O que importa ao visitante é a parte terrestre: o deserto de Paracas, moldado pelo vento que arrasta a areia da costa e das vertentes andinas, cai a direito no Pacífico de falésias que chegam aos quarenta metros.
O percurso de carro privado dura quatro horas. Três pontos incontornáveis: a Catedral — uma formação rochosa em forma de abóbada gótica cujo arco caiu com o sismo de 2007, e de que resta a base, ainda imponente, à beira de água; a Playa Roja, uma enseada cuja areia a erosão da falésia vizinha tinge de vermelho-alaranjado contra o azul do mar; e o miradouro de Lagunillas, onde se almoça peixe do dia em cabanas de pescadores, com o Pacífico lá em baixo.
O centro de interpretação da reserva vale meia hora. Explica a corrente de Humboldt, os ciclos do El Niño, a cultura Paracas que ocupou esta costa há uns dois mil e quinhentos anos, e a fauna atual.
O sobrevoo de Nazca, opcional
Para quem dispõe de três dias, o segundo pode ser dedicado a um sobrevoo das Linhas de Nazca. Pisco tem aeródromo de onde sai um Cessna privado de seis lugares. Voo de noventa minutos, trinta sobre as linhas (o macaco, o colibri, as mãos, o cão, o astronauta) e quarenta e cinco de ida e volta. É exigente — turbulência, curvas apertadas —, mas a vista das linhas não tem equivalente. Não recomendamos o sobrevoo a partir de Lima, que leva cinco horas; a partir de Pisco, noventa minutos, sim.
Onde dormir: duas casas
O Hotel Paracas, a Luxury Collection Resort é a casa de referência. Sobre a baía de Paracas, cento e vinte quartos, duas piscinas (uma aquecida para o inverno), spa, dois restaurantes (Ballestas para cozinha internacional, Chalana para marisco), cais privado e transfer privado até à reserva. É a escolha habitual.
O Aranwa Paracas Resort & Spa, a poucos minutos na mesma baía, é a alternativa boutique. Também de frente para o mar, com serviço mais personalizado e arquitetura mais andina (madeira, pedra). Recomendável para casais ou lua de mel.
Para orçamento mais medido, La Hacienda Bahía Paracas: quatro estrelas, frente ao mar, sem luxo mas com bom serviço. Para três noites com base em Paracas e vontade de explorar Ica, recomendamos duas noites na baía e uma numa bodega de pisco do vale.
Como encaixá-lo na viagem
Paracas encadeia-se com Lima numa sequência natural: duas noites em Lima, duas em Paracas (um dia de Ballestas e reserva), regresso a Lima à tarde, voo para Cusco no dia seguinte. É a fórmula da viagem de catorze dias. Para a de dez, Paracas é opcional — se for escolhido, acrescenta duas noites ao conjunto.
Uma variante para os mais eficientes: uma só noite em Paracas, Ballestas na manhã seguinte e regresso a Lima à tarde. Funciona, mas a reserva fica de fora. Se só houver uma noite, mais vale umas Ballestas bem feitas — de lancha privada ao amanhecer, a versão que mais recomendamos — do que meia reserva.
O último conselho é de ordem visual: Paracas não fotografa bem ao meio-dia. A luz achata as falésias vermelhas e os brancos do deserto. As duas horas que valem vão das seis às oito da manhã e das cinco às sete da tarde. Quem quiser o postal — deserto vermelho, mar azul, céu mineral — organiza o itinerário em torno dessas duas janelas.
Escrito por Kada Travel Editorial
Perguntas Frequentes
Sim. A Reserva Nacional — o deserto a cair ao mar — vale por si só, sem as Ballestas. A Playa Roja e a Catedral são paisagens sem equivalente na costa peruana.
Três horas e meia de carro privado desde Lima pela Pan-Americana Sul. Não chegam voos regulares; o aeródromo de Pisco só opera voos privados e o sobrevoo de Nazca. A estrada é boa mas monótona; recomendamos um audiolivro ou a conversa de um guia.
De dezembro a abril: céu limpo, mar azul, 25-28 °C. De junho a outubro: época da garúa, cinzenta, mas com a migração das baleias e os pinguins no pico. Maio e novembro são meias-estações aceitáveis.
As Galápagos têm endemismos — tartarugas gigantes, iguanas marinhas — que as Ballestas não têm. Mas as Ballestas oferecem densidade de fauna marinha comparável, a três horas de Lima em vez de um voo internacional, e por uma fração do esforço. Não substituem as Galápagos; completam-nas.
Para o viajante apaixonado por arqueologia, sim. Para quem não enjoa com facilidade, sim. Para quem tem o tempo contado, não — dedicar meio dia a um voo de noventa minutos exige que seja uma prioridade. Sempre a partir de Pisco, nunca de Lima.
As Ballestas são excelentes para crianças com mais de cinco anos: a lancha, os lobos-marinhos a poucos metros, os pinguins. Abaixo dos cinco, o passeio de barco pode ser longo. A reserva, de carro privado e com paragens, funciona para todas as idades.
Desenhe a Sua Viagem
Desenhe a sua viagem à medida no Peru
Conversamos. Escutamos. Depois desenhamos um itinerário que só lhe pertence a si.
Comece a Planejar
